Do seminário para a JPMorgan


Chris Lowney, jesuíta de formação, vem à Leadership Summit Portugal com um compromisso: “Eu quero usar o nosso precioso tempo juntos para convidar os líderes inteligentes que estarão presentes a refletirem sobre a oportunidade única que a vida lhes deu”. Ensinar a espiritualidade e o significado de uma liderança heróica, são o mote para a sua participação na cimeira de outubro.

O seminarista que olha para a liderança pela lente de Santo Inácio de Loyola, acredita que as respostas que dão sentido e significado à nossa vida estão numa liderança assente no saber, no autoconhecimento, no amor e no heroísmo. Uma liderança sem exclusões. Todos são líderes de alguma coisa na vida. Quanto mais não seja, da sua vida. E isso é, por si só, muito.

Por: Catarina G. Barosa, diretora editorial

Passou de uma vida de seminarista para o mundo dos negócios. O que determinou essa decisão drástica?

Chris Lowney (CL): O meu principal “discernimento” ou decisão na altura não era sentir-me atraído por bancos de investimento, mas sim ter de discernir o meu caminho no mundo. Entrei para o seminário dos jesuítas aos 18 anos e senti-me bastante feliz no começo, mas com o tempo, e ao tornar-me mais adulto, comecei a entender que essa não era a minha função no mundo. Ainda sou uma pessoa religiosa, mas percebi que não seria feliz como sacerdote: e o mundo não precisa de padres infelizes, ou de advogados infelizes, ou de banqueiros infelizes. Precisamos de nos conformar com algum papel que sintamos que não só traz valor ao mundo, mas também nos proporciona paz e satisfação pessoal.

Porque decidiu ir para o seminário? O que aprendeu? Tomaria a mesma decisão novamente?

CL: Fui jesuíta durante cerca de sete anos e saí antes de sequer me tornar padre. Se tomaria novamente a mesma decisão? Essa é uma boa pergunta e muito interessante! Por um lado, se eu soubesse, com certeza, que essa não era a minha vocação – “calling”, então acho que a resposta deveria ser “não”: como é que faria sentido começar a estudar para ser padre se desde o início sabia com certeza que não iria completar os estudos. Mas esta resposta provavelmente tem mais dimensões. Não me arrependo do tempo que passei no seminário e vejo agora que foi uma grande formação de vida, já que aprendi coisas sobre a vida e adquiri uma certa visão e valores que me acompanham até hoje. Ironicamente, percebo que não poderia fazer as coisas que faço hoje se não tivesse sido jesuíta por alguns anos. Quanto mais velho fico, mais misteriosa a vida se torna para mim! No sentido de que criamos os nossos próprios planos para a vida, mas o futuro nunca acontece da maneira como o prevemos. Há uma grande citação do filósofo Kierkegaard que veio a significar muito para mim: “A vida deve ser vivida em frente, mas só pode ser entendida de trás para a frente”. Noutras palavras, muitas vezes, é apenas quando olhamos para as nossas próprias experiências que vemos a maneira misteriosa de cada passo que demos que, de alguma forma, nos preparou para o próximo.

O livro Liderança Heróica relata a importância dos ensinamentos da Companhia de Jesus sobre liderança. Pode dizer-nos como aplica esses ensinamentos?

CL: A minha carreira não foi assim tão típica: estudei para ser padre, como jesuíta, durante alguns anos. Depois, trabalhei no banco de investimento JPMorgan onde tive a sorte de ascender a diretor administrativo, tendo a oportunidade de trabalhar em locais como Tóquio, Singapura, Londres e Nova York. Estas experiências de vida levaram-me a algumas convicções simples. Uma pessoa que lidera no banco JPMorgan, lidera como jesuíta; liderar uma família ou uma grande empresa tem aspetos em comum, como exploraremos durante a Leadership Summit Portugal. Em Liderança Heróica, pensei que seria divertido e interessante refletir sobre a notável história e sucesso dos jesuítas em quase cinco séculos e explorar a existência de ideias de liderança do século 21 em homens do século XVI, como Inácio de Loyola e os outros fundadores jesuítas. Portanto, estruturei o livro em torno de quatro “pilares”, quatro valores que parecem ser relevantes para uma boa liderança em todas as esferas da vida: a do saber, a de ser autoconsciente, a do amor, e a do engenhoso e heróico. Se pudermos trazer estas quatro qualidades à nossa vida e ao nosso trabalho, teremos sucesso.

Existe alguma receita para ser um bom líder?

CL: Compreender o papel de um líder não é difícil para mim: essa é a parte simples. O difícil é fazer bem o trabalho de liderança e colocá-lo em prática. Aqueles que estiverem presentes na cimeira descobrirão que gosto de ideias simples: acho que um dos problemas da atual “indústria” de liderança e coaching é que temos os chamados especialistas que apresentam fórmulas e ideias muito complicadas. Isso leva a que as pessoas se sintam confusas acerca das suas responsabilidades fundamentais como líderes. Para mim, essas responsabilidades fundamentais são diretas:

      • Liderança tem que ver com a obtenção de um sentido de direção: quer seja a minha vida ou a empresa, tenho uma visão clara ou uma ideia de onde quero estar no próximo ano, e nos próximos três anos;
      • A liderança também tem como propósito influenciar os outros a seguir essa direção: fazer com que os outros “alinhem”, e queiram estar na equipa, queiram entender o objetivo e estar motivados para o alcançar;
      • No final, é preciso chegar a algum lugar: a liderança tem também que ver com a obtenção de resultados.

Reconhecer qual o nosso papel como líderes não é difícil. O difícil é encontrar uma “receita” para colocá-lo em prática todos os dias, em todas as situações. Os seres humanos são complexos; o mundo continua a mudar ao nosso redor e é esta mudança contínua que torna o trabalho de um líder sempre desafiador, em todos os aspetos.

A espiritualidade pode ser exercida? Como?

CL: Quando faço workshops de liderança em empresas, mesmo que a empresa seja o negócio mais “material” e “tangível” que se possa pensar – como uma empresa de construção de prédios, máquinas ou carros –, defendo que uma “grande liderança é espiritual”. Não quero que a palavra “espiritual” seja entendida como se tivéssemos todos de ter uma crença religiosa específica: alguns de nós pertencem a uma tradição religiosa ou a outra, outros não seguem nenhuma tradição religiosa. Não pretendo focar-me em tradições religiosas específicas. Em vez disso, quando digo que uma grande liderança é espiritual, quero dizer: deixe-me convidar os leitores a pensar nas qualidades pessoais que associam aos grandes líderes. Aposto que a maioria das qualidades em que as pessoas pensarão são espirituais, no sentido de que não são tangíveis: não podemos tocá-las, medi-las ou contá-las. As pessoas costumam dizer que os grandes líderes têm um sentido de visão, paixão, compaixão, humildade pessoal, coragem, bom senso, capacidade de inspirar e assim por diante. Se alguém tem todas estas habilidades, geralmente é possível medir e ver os resultados da sua liderança em termos dos resultados alcançados pela equipa ou pela empresa. Mas quanto às qualidades em si? Não podemos contar ou medir a “paixão” ou a “humildade”. Estudar um gráfico ou uma tabela eletrónica não me tornará uma pessoa ou um líder corajoso, humilde e inspirador. Eu tenho de usar as minhas próprias crenças espirituais e convicções para liderar de tal maneira.

Como se define a si próprio enquanto líder?

CL: Antes mencionei que a liderança envolve apontar o caminho ou a meta e influenciar os outros a seguir em direção a ela. Se pensarmos nesta definição, cada pessoa pode ter uma oportunidade de liderança agora. Noutras palavras, estamos todos “a apontar o caminho”, implicitamente, em virtude dos valores que representamos: Trabalhamos arduamente? Tratamos os clientes e os outros de forma justa? Apoiamos os nossos colegas ou sabotamo-los? E assim por diante. E de certa maneira, todos nós temos alguma influência, boa ou má, o tempo todo, nas pessoas à nossa volta, começando com nossa família e colegas de equipa, mesmo que sejamos ou não o líder. Todos associamos estereotipicamente a liderança a pessoas muito famosas, como Bill Gates, o presidente de uma nação ou o Papa. E o principal objetivo de todas as minhas palestras é ajudar as pessoas a perceberem que precisam de pensar em si mesmas primeiro quando pensam na ideia de liderança e pensar nas oportunidades que cada dia temos para liderar.

Nós nascemos líderes?

CL: A questão clássica é: os lideres nascem ou são criados? E como se pode entender pelo que disse anteriormente, eu acredito fortemente que cada um de nós tem oportunidades de liderança, e podemos tornar-nos sempre melhores. A liderança é, portanto, uma jornada vitalícia de mais e mais autoconsciência dos nossos pontos fortes e fracos, combinada com o compromisso de continuar a aproveitar ao máximo as oportunidades que a vida nos proporciona. Desta forma, espero que as pessoas achem as minhas ideias muito animadoras, afirmativas e otimistas. Não quero com isto dizer que apenas algumas pessoas nascem com o carisma, as habilidades de falar, a riqueza e as conexões necessárias para se tornarem líderes – para o resto de nós, azar!… Quero, pelo contrário, dizer que a vida não me deu os dons e as circunstâncias para me tornar Presidente de Portugal, mas a vida ofereceu-me muitas oportunidades para liderar, de formas menores, mas vitais. É preciso saber adotar uma mentalidade que nos permita aproveitar essas oportunidades quotidianas que surgem no nosso caminho: se tivermos essa mentalidade, tornar-nos-emos pessoas mais eficazes, mais felizes e mais realizadas.

Como vê os atuais líderes mundiais? Trump, Putin, Kim Jong-un.

CL: Mencionou um conjunto muito interessante de nomes! Deixe-me evitar fazer comentários sobre qualquer líder individual em particular. Mas deixe-me dizer que: cada pesquisa ou questionário que tenho visto mostra que temos uma confiança muito baixa nos líderes políticos de hoje em dia. Normalmente, menos de 10% das pessoas dizem ter “grande confiança” nos líderes políticos. Acredita nisso? Há muitas razões para esses baixos rankings, começando com o facto de que o trabalho de liderança se tornou realmente difícil porque o mundo se tornou complexo e em rápida mudança, e as pessoas querem soluções instantâneas para problemas muito difíceis. Acho que há outra razão pela qual todos nós nos sentimos tão mal com a qualidade da liderança que vemos em muitos políticos; muitos líderes, hoje em dia, na política, nos negócios, etc., colocam o seu próprio poder, a ganância, o ego ou status como uma preocupação muito importante, em vez de colocar, em primeiro lugar, as pessoas ou a missão que deveriam servir. As pessoas tornam-se cínicas quando veem este tipo de auto-absorção ou a qualidade “eu primeiro” nos seus líderes.

Como gostaria de ser lembrado um dia?

CL: Com frases como esta: “Chris usou bem os seus dons, isto é, usou-os para propósitos maiores do que as suas próprias necessidades egoístas. O mundo é um pouco melhor porque Chris passou por ele. Chris deu tanto amor quanto recebeu. Ele era um ‘giver’, não apenas um ‘taker’. Foi capaz de tornar outros melhores através da sua interação com eles”. Deixe-me adicionar imediatamente que estou muito longe de alcançar o tipo de legado que acabei de descrever! Mas pelo menos sei que tipo de pessoa gostaria de ser: Aristóteles disse que estamos mais propensos a acertar no alvo se soubermos para que alvo estamos a apontar! Esta é uma ideia muito simples, mas bastante poderosa – precisamos de decidir que tipo de pessoas queremos ser, e que legado queremos deixar. A maioria das pessoas simplesmente são sugadas para a corrida da carreira, os próximos passos, dinheiro, etc., e nunca voltamos a perguntar a nós mesmos sobre a “grande questão” de quem queremos ser na vida. Pelo menos, eu sei o que quero. Agora preciso de melhorar para me tornar uma pessoa assim. Esta é uma jornada vitalícia para todos nós.

O que podemos esperar da sua participação na Leadership Summit Portugal, no próximo dia 01 de outubro?

CL: Vou desafiar as nossas ideias sobre liderança e convidar as pessoas a pensar sobre as oportunidades de liderança e as responsabilidades que a vida lhes deu, sejam eles pais, professores, executivos de empresas, líderes de ONG, etc. Muitas vezes, oradores em eventos de liderança concentram-se apenas em “dicas e táticas”. Qualquer pessoa pode ler algumas dicas em livros. Eu quero usar o nosso precioso tempo juntos para convidar os líderes inteligentes que estarão presentes para refletirem sobre a oportunidade única que a vida lhes deu.

Scroll to Top