Na liderança de empresas não existe qualquer dúvida: é necessário um rumo, um desígnio, objetivos claros para cada trabalhador, pelos quais, aliás, devem ser avaliados (sem as intervenções demagógicas e invejosas de quem está fora). Mas, e no país? Será igual?
No muito discutido – e ainda bem que o foi – discurso do 10 de junho, João Miguel Tavares propôs aos políticos que nos apontassem esse desígnio. Permito-me discordar. Aos políticos de uma sociedade aberta e liberal, como aliás o João Miguel Tavares tem defendido, os desígnios podem e devem ser contraditórios. Convivo com pessoas que me dizem que a emergência climática se deve sobrepor a tudo; outras acham que deve ser a investigação científica e tecnológica, justamente para mitigar, prevenir ou anular os efeitos do clima. Outras, ainda, não acham que as alterações climáticas sejam assim tão importantes, pelo que a Educação é que conta. Ou a Saúde. Ou a Justiça, sem a qual o país se lassa e corrói.
Compreendo que o meu colega jornalista e comentador não pretendesse uma espécie de “plano quinquenal” tipo soviético, nem sequer o “plano de fomento” corporativo dos tempos do salazarismo. Mas noto que, demasiadas vezes, se fala do Interesse Nacional como se ele não dependesse de quem fala; ou, pelo menos, da perspetiva da área política de quem o defende. Há diversos interesses numa Nação, ao contrário do que se passa numa empresa ou numa associação que são focadas numa atividade específica ou, mesmo que sejam em várias, como no caso das empresas maiores, têm objetivos específicos traçados para cada uma das áreas da sua atuação. A diferença de uma empresa para um país, é que na primeira são os acionistas e os seus representantes na gestão a definir tais objetivos. Já num país, são todos os cidadãos eleitores (e até os que não votam) os que decidem. Ao contrário dos acionistas não têm como esperança o retorno do investimento, nem criar valor, mas apenas viver melhor com os serviços que o Estado lhes pode (ou não) prestar.
Por isso, liderar ou dirigir um Estado não pode ser nunca semelhante a liderar ou dirigir uma empresa. Por isso também, a chamada democracia empresarial nunca funcionou. Uma empresa dirigida pelas maiorias que os seus trabalhadores fossem formando seria sempre um caminho para o abismo. Com isto, não pretendo que não haja muitos pontos comuns. Apenas sublinho, justamente antes de passar aos pontos comuns, que os desígnios, os caminhos, os rumos que podem e devem ser apontados num ambiente empresarial, dificilmente poderão ter tradução para a esfera da política.
No entanto, há outros pontos (também abordados por João Miguel Tavares) em que não só é possível, como até desejável esse encontro.
Desde logo o exemplo. Ninguém pode ser líder se não for exemplar e escrupuloso. A cultura da exigência, tendo obrigatoriamente de se estender a todos os patamares de responsabilidade, não pode deixar de começar por cima, pelos que decidem. Mas dar o exemplo não é igual a exibir modéstia e falta de ambição, como alguns pretendem. Os chefes ganham mais do que os subordinados não por passarem mais horas num escritório, mas sim porque o seu trabalho é mais responsável, especializado ou reprodutivo. Ainda assim, há certos aspetos em que o exemplo tem de ser dado para lá desta conceção, sobretudo em áreas de trabalho onde nem todos compreendem por que razão alguém trabalhando menos horas pode ganhar mais. Mas há mais exemplos: os de seriedade, probidade e escrúpulo; os da justiça no tratamento dos outros; da igualdade de oportunidades para todos, reconhecendo o mérito e não uma cultura de nepotismo que é claramente maléfica aos resultados.
Outro ponto comum – e esse na política temo-lo de sobra com Marcelo Rebelo de Sousa – é a afabilidade, a simpatia, o trato com aqueles que nos rodeiam. Nenhuma empresa se torna mais produtiva e, sobretudo, mais criativa com um ambiente que, podendo ser justo, escrupuloso, meritocrático, não tenha o lado das relações humanas bem resolvidas. E, neste ponto, o mesmo também se pode dizer da política. Diversos estudos o revelam e o que se chama carisma mais não é do que a atração ou fascínio que certos líderes provocam nos seus seguidores.
Em resumo, se queremos rumos ou desígnios para a Pátria, dificilmente os encontraremos em democracia; porém, eles são fundamentais nas empresas. Já o exemplo e a harmonia das relações humanas são requisitos que os líderes, sejam eles políticos, empresariais ou associativos, não podem deixar de ter.

Por: Henrique Monteiro, jornalista e antigo diretor do Expresso
