Liderança transcendente

Há uns anos, não muitos, estando eu com alguma curiosidade sobre o mundo do futebol e sobre a sua dimensão inexplicável, diria espiritual, decidi escrever um livro onde procurei, por um lado, abordar esse lado mais misterioso do futebol associando-o às práticas de liderança de treinadores e atletas, e, por outro, fundamentar muitas das conclusões a que cheguei, na Filosofia.

Foi uma aventura inesquecível onde aprendi mais de liderança do que alguma vez imaginei. E tal como no Homem que pratica desporto existe um movimento intencional com vista à sua transcendência, na definição de liderança a que cheguei, o líder que planeia, organiza, dirige e controla, fá-lo igualmente de forma intencional e com vista à transcendência.

Isto porque no centro da liderança está o Homem na sua totalidade, em relação permanente com o liderado ou liderados e consigo próprio.

Neste caminho para a transcendência, mais importante do que o conhecimento (a dimensão lógica da realidade) é o reconhecimento ( dimensão humana da realidade), e, por isso, é de um Eu (líder), de um Tu (liderado) e do Nós (equipa) que falamos e não de um Isso ( coisas ou objetos), ou de vários Eles ( não estão em relação connosco). Quando chego a esta conclusão, faço-o através do pensamento de Martin Buber e dos exemplos de Fernando Santos e Alex Ferguson enquanto treinadores com uma visão clara e espiritual do outro.

Mas há uma operacionalidade na liderança que deve também ser tida em conta, ela assenta numa nova forma de pensar onde, além do pensamento lógico-dedutivo, a racionalidade experiencial e poética, de Maria Zambrano, bem como a razão mediadora e o desejo racional de Espinosa, devem ser desenvolvidos e treinados para o atingimento deste nível metafísico na liderança. É isso que fazem alguns treinadores como José Mourinho, Fernando Santos, também Alex Ferguson e alguns atletas como Cristiano Ronaldo ou Eusébio da Silva Ferreira.

Um modelo para a liderança, tal como teorizou Manuel Sérgio, conhecido como o pai da Motricidade Humana e o filósofo do futebol, aponta para um pensamento complexo e um método integrativo, na medida em que usamos várias maneiras de pensar, várias disciplinas do saber e precisamos de as integrar de maneira a podermos lucidamente atuar.

Ao conseguirmos operacionalizar uma nova liderança assim preconizada, ficaremos mais habilitados a fazer o movimento para a transcendência, afastando-nos de uma certa maneira de atuar ou reagir orientada para satisfazer os nossos prazeres e a fugir das nossas dores, esquecendo que a excelência se situa algures, a meio caminho: entre a dor e o prazer.

O movimento para a excelência pode assim coincidir com o movimento para a transcendência.

Liderança poderia assim ser um movimento intencional, feito em simbiose com outros indivíduos, onde conhecimento e reconhecimento se operacionalizam através da prática do pensamento complexo para o qual deveriam contribuir todas as disciplinas do saber onde o Homem seja central. Razão lógico-dedutiva, a experiencial ou poética, a mediadora e o desejo racional seriam os instrumentos.

Por: Catarina G. Barosa, diretora editorial da revista Líder

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