Liderar pelo erro

Há mais de 20 anos, quando fui nomeado responsável pela revista do Expresso (e também pelo caderno de cultura, que entretanto se fundiu, e bem, na Revista E, que há anos acompanha o jornal) prometi guerra a quem, perante uma ideia diferente, respondesse “isso nunca se fez”!

Curiosamente, em conversas, ou mesmo em textos, continuo a ouvir e ler o mesmo argumento: “isso nunca se fez”. A maioria das vezes o argumento é verdadeiro, mas tal facto não lhe confere razão adicional. Muitas coisas que fazemos na vida, nunca o fizéramos e a única forma de aperfeiçoarmos seja qual for a atividade pessoal é, justamente, por esta via de “tentativa-erro”.

Num mundo que está repleto de novidades e de mudanças radicais, querer manter o “business as usual” é verdadeiramente suicidário. De resto, a vantagem da rapidez na comunicação e nas transações atuais é o facto de qualquer erro poder ser corrigido com igual velocidade.

Não me refiro ao experimentalismo, que também deve ter o seu lugar, embora em ambientes restritos e controlados (áreas delimitadas, como centros de investigação e desenvolvimento). Nada disso. Fazer o que nunca se fez deve resultar não da vontade de fazer diferente para se experimentar, mas resultar do estudo das novas condições do mercado e das novas ideias que circulam entre todos envolvidos – de concorrentes a clientes, de consumidores esporádicos a fidelizados.

Claro que as conclusões que retiramos de tais estudos e análises podem estar errados; nesse caso, teremos de voltar e corrigi-los. Corrigi-los tantas vezes até conseguirmos adaptar-nos – eis o nosso dever.

O jogo da liderança, hoje em dia, como o de quase todas as atividades, é um jogo de adaptação. E sem tentativas, que inevitavelmente produzem alguns erros, o destino é a obsolescência e a morte.

Por: Henrique Monteiro, jornalista e antigo diretor do Expresso

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