O mundo à nossa volta está a sofrer transformações a uma taxa exponencial. Quer se trate do veículo autónomo parado ao nosso lado no semáforo, dos laboratórios médicos que podem recorrer à utilização do CRISPR para editar o nosso ADN ou para imprimir novos órgãos em 3D, ou ainda do desenvolvimento de redes neurais que se digladiam entre si, mas que estão prestes a copiar a imaginação humana – todas as novas tecnologias que até há bem poucos anos teriam desafiado a imaginação estão prestes a fazer parte do nosso dia-a-dia.
Com todo o excitante potencial que a tecnologia nos proporciona, muitos são aqueles que se questionam sobre a velocidade a que devemos prosseguir. Eu argumentaria, contudo, que estamos a colocar a questão errada – não é tanto a que velocidade devemos prosseguir, mas antes saber se será possível desacelerar. Seremos capazes de nos conceder o espaço necessário para pensar e, de forma determinada, definir valores partilhados, de construir o futuro que desejamos ver?
Embora os avanços que têm surgido ao nível das novas tecnologias, como a IA, a aprendizagem das máquinas, a análise de big data e a computação quântica nos possam ajudar a resolver alguns dos problemas mais cruéis do mundo, caso não venham a ser gerenciados de modo adequado, poderemos correr o risco de exacerbar as atuais falhas em termos de desigualdade global e de vir a corroer a confiança existente na sociedade, transformando o divisor digital no verdadeiro abismo da Quarta Revolução Industrial.
A crescente convergência e omnipresença das tecnologias está a mudar a forma como fazemos negócios, criando, ao mesmo tempo, novos paradigmas e tornando obsoletos todos os que anteriormente existiam. Esta nova realidade exige o repensar da forma como organizamos os mercados e de como preparamos os nossos trabalhadores para a economia digital, já que muitos empregos serão deslocados pela automação. Precisamos, assim, de uma nova e ágil legislação que possa acompanhar todas estas rápidas mudanças, promovendo, ao mesmo tempo, a inovação e protegendo os cidadãos. Enquanto os riscos são mitigados, necessitamos de maiores níveis de colaboração e de parcerias público-privadas, por forma a poder acelerar os impactos positivos e inclusivos das novas tecnologias nos diferentes grupos dentro da sociedade, e entre as diferentes sociedades.
Precisamos de desacelerar e de nos questionarmos sobre a forma como melhor podemos definir os valores que pretendemos defender, e de como a tecnologia nos pode ajudar a atingi-los, ao invés de permitirmos que estes valores sejam definidos por outrem em nosso nome.

Por: Kelly Ommundsen, líder para a Economia Digital e Sociedade do Fórum Económico Mundial
