Estamos todos familiarizados com o sistema de classificação que a Uber popularizou. Ao deixar o carro que acabou de o transportar, o seu telemóvel infalivelmente pedir-lhe-á para classificar o seu motorista entre uma e cinco estrelas. Simultaneamente, o motorista classificá-lo-á a si numa escala semelhante de uma a cinco estrelas. Se, por acaso, não sabia e um dia se encontrar quinze minutos à espera de um Uber, verifique a sua classificação: provavelmente terá baixado do “mínimo” de quatro estrelas e aí todos os motoristas farão o possível por evitar a sua chamada…
Agora imagine que um Governo e um país se dedicam a classificar todos os seus cidadãos em relação ao seu “comportamento social” com o objetivo de avaliar o seu grau de “confiabilidade”. É exatamente isso que a China está a fazer neste momento. Se o plano for cumprido – e, na China, os planos têm tendência a tornar-se realidade – no ano 2020 todos os cidadãos chineses terão um “rating social”. Como funciona? Simples. O sistema começa com um crédito de cem pontos ligados ao cartão do cidadão ou a uma conta de media social. Se você fizer algo “bom”, por exemplo, doar sangue, trabalhar para uma organização de caridade ou postar uma mensagem positiva sobre a China, nesse caso ganha pontos. Mas, se fizer algo “mau” como cancelar uma reserva, atravessar fora da passadeira para peões ou até mesmo estar associado a uma pessoa com um “rating social” baixo, aí você perde pontos. E, como nada disto acontece sozinho, lá estão milhares de câmaras de vigilância munidas de Inteligência Artificial e sistemas de reconhecimento facial para registarem cada movimento público, a forma de conduzir o seu automóvel, os locais que frequenta, os horários que cumpre (ou não) e por aí fora. E, claro, tudo isto coadjuvado com os tradicionais algoritmos e “nuvens” que interpretam e registam cada movimento nosso na Internet e nas suas múltiplas plataformas. Em Suzhou o sistema está já completamente operacional. Como é óbvio, existem consequências. Quem tiver mais pontos poderá ter acesso a ginásios, a bilhetes de avião em época alta ou a tempos de espera reduzidos em hospitais (!!!). Mas se a sua pontuação é baixa, a sua Internet funcionará mais lentamente e provavelmente terá de voltar a casa de burro porque não terá acesso aos moderníssimos meios de transporte hoje existentes na China. Já para não falar que, no hospital, vai para o fim da fila…
A tremenda violação de direitos básicos – o doente não é assistido segundo a gravidade da sua doença, mas sim de acordo com o seu “rating social”; a classificação de opiniões políticas sobre o país por forma a impedir o acesso a serviços básicos, como a rede de transportes, por exemplo – deixa antever o tremendo potencial de abuso, já patente nestes exemplos, a coberto de uma pretensa promoção de comportamentos “sociais”.
Quem pudesse visitar Xinjiang, uma província no noroeste da China de maioria muçulmana Uighur, ver-se-ia confrontado com um cenário de vigilância sem par. Nas cidades de Kashgar ou Hotan, a cada duzentos ou trezentos metros, altos postes encimados por um conjunto de câmaras com capacidade de reconhecimento facial asseguram que apenas os diretos proprietários conduzem os veículos em circulação. É que as mesmas câmaras identificam também os números das matrículas de cada viatura. Porque o Governo chinês vê na minoria Uighur uma ameaça terrorista, cada cidadão apenas pode adquirir telemóveis que contenham spyware que permita ao mesmo Governo controlar cada chamada, no seu destino como no seu conteúdo. Cada site, cada mensagem, cada utilização de media social é sujeita ao escrutínio do Governo. Os designados “Wi-Fi sniffers” (“farejadores de rede sem fios”) fazem o seguimento de todos os aparelhos dentro do seu raio de alcance. Os cartões de cidadão dos Uighurs contêm todos os dados biométricos dos seus titulares, sendo abertamente racistas pois declaram a raça do seu detentor se ele for Uighur. Para tal, são “convidados” a ceder uma amostra do seu sangue. Os bilhetes de identidade contêm também o cadastro do seu titular e… o seu grau de “confiabilidade social”… e aqui se fecha o círculo.
O sistema faz com que nada escape ao olhar e à escuta do Governo chinês. A capacidade sempre crescente de armazenar e analisar os dados pessoais de cada cidadão é, no caso de província de Xinjiang, refinado e polido com a aplicação do filtro de “confiabilidade social”. Os Estados podem hoje saber praticamente tudo sobre cada um de nós. Neste exemplo, já não é só o que sabe, mas a maneira como o interpreta, à luz da sua ideologia e do que considera socialmente correto.
O potencial de abuso tecnológico é imenso e já presente. Não devemos subestimá-lo.

Por: Ricardo Monteiro, Sonae IM advisory board, TVI commentary, invited professor PBS-UC Lisboa
