Acelerar para a liderança

Ferrari World é um parque temático em Abu Dhabi que aposta em experiências de entretenimento ligadas ao mundo automóvel e à marca Ferrari, em particular. A Líder esteve lá e falou com Jesse Vargas, CEO do Ferrari World desde 2014. Podia ter trabalhado em Wall Street, mas foi com o seu primeiro trabalho de Verão, num parque temático, que se apercebeu do potencial deste negócio.

Por: Catarina G. Barosa

Líder (L): Qual foi o seu percurso até chegar à sua atual posição?

Jesse Vargas (JV): Estudei na Universidade do Texas nos Estados Unidos da América, aliás, fui a primeira pessoa da minha família a estudar numa universidade. Fui para a universidade sem saber bem porquê, era algo que os meus pais me disseram para fazer. Compreendo agora que é algo que abre muitas portas e o que aprendemos na universidade é útil diariamente, mesmo vinte anos depois de ter terminado o curso.
Enquanto estudava trabalhava também durante o verão e, por acaso, fi-lo num parque temático. Nessa altura, pensava que o meu futuro seria trabalhar nos mercados financeiros, provavelmente em Wall Street, só que o meu trabalho de verão tornou-se mais sério e transformou-se numa carreira.

L: Qual foi o seu primeiro trabalho como líder?

JV: Foi num parque temático, era instrutor de nadador-salvador. Era uma posição muito difícil, liderar pessoas que eram da minha idade. Eu tinha dezanove anos, não sabia sequer liderar a minha própria vida, quanto mais a dos outros, mas fiz o melhor que pude e percebi que liderar não é um direito, é uma responsabilidade.

L: Quais foram as principais lições que retirou dessa primeira experiência como líder?

JV: Aprendi de duas formas, pelo sucesso e pelo fracasso. Percebi rapidamente que devemos inspirar as pessoas e essa lição aplico-a todos os dias aqui no Ferrari World. Posso entrar numa sala cheia de pessoas para uma reunião e perceber que é preciso transmitir-lhes que há um motivo maior que as faz vir trabalhar todos dias, no nosso caso é fazer do Ferrari World o mais excecional parque temático até 2020, esta é a visão que temos para nós próprios. Não passo a minha rotina diária a lembrá-lo às pessoas, elas sabem-no, é nesse sentido que trabalham, é o filtro pelo qual todos passam. Eu, enquanto líder posso errar, mas se o fizer, é baseado naquele objetivo específico. As crises e emergências podem aparecer, mas no final da semana, se tivermos em mente o nosso objetivo maior, certamente estaremos onde devemos estar.

L: Como foi o desenvolvimento da sua carreira?

JV: A minha carreira passou por três fases. No início, era muito leal às marcas, isso era muito importante para mim, queria trabalhar para uma grande marca, Merryl Lynch, Prudential, até me ofereceram um trabalho em Wall Street. Aprendi rapidamente que a lealdade a uma marca é um conceito errado.
Na segunda fase da minha carreira, passei a ser leal a uma pessoa, mas as pessoas são falíveis e mais cedo ou mais tarde deixam-nos cair, não necessariamente duma forma negativa, mas acontece.
Agora, na terceira fase da minha carreira, onde me sinto confortável e onde as pessoas deverão chegar quando são líderes, é a lealdade às minhas pessoas, as pessoas que trabalham comigo e que nunca me deixam ficar mal, elas conhecem os objetivos e trabalham todos os dias para os alcançar. Esta é a terceira e mais importante fase da minha carreira, é muito recompensador ver as minhas pessoas a esforçarem-se para alcançarem os nossos objetivos, é isso que me faz levantar da cama todos os dias e vir trabalhar, sou responsável pelas 680 pessoas que trabalham aqui, isso é muito maior do que honrar uma marca ou fazer feliz um mentor.

L: Quais são as principais diferenças de liderança entre o mundo ocidental e o médio oriente?

JV: Liderar será sempre gerir pessoas e as pessoas têm sempre o objetivo de trabalhar para uma causa maior do que elas próprias e também desejam que as suas famílias estejam bem. Desde que estes dois objetivos sejam cumpridos, simultaneamente, as pessoas sentem-se bem.
A grande diferença é que aqui na Ferrari World há uma enorme diversidade; há sessenta nacionalidades diferentes a trabalharem neste edifício; o comité de direção, que presido, é constituído por vinte e sete pessoas de catorze nacionalidades diferentes. O maior desafio é, de longe, gerir as diferenças culturais de todas estas pessoas, dizer sim por um indiano é muito diferente de dizer sim por um sul africano. Estamos a falar de culturas muito distantes umas das outras e que tiveram pouco contacto ao longo dos anos, os temperamentos são diferentes, o conceito de tempo é diferente, isso são coisas que um bom líder, nesta parte do mundo, tem de compreender.
Quando as pessoas vêm trabalhar para o médio oriente eu dou dois conselhos: o primeiro é ouvir com atenção, o segundo é ser respeitador. Estas duas coisas vão levá-lo longe neste mercado.

L: O Ferrari World tem-se adaptado à nova era digital, à robotização, à Inteligência Artificial?

JV: No mundo do entretenimento este parque está na vanguarda do desenvolvimento tecnológico, por exemplo, ao compreender melhor os comportamentos dos nossos visitantes, pois nós não vendemos um produto, vendemos uma experiência, precisamos de ter dados que nos permitam compreender o que as demografias do futuro pretendem neste tipo de experiências. Quando projetamos uma nova atração, um novo restaurante, uma nova loja, precisamos de saber o que é pretendido pelo nosso cliente dentro de quatro anos e não o que queria o nosso visitante de ontem. Estamos num mercado extremamente dinâmico e com um potencial de visitantes enorme. Há três biliões de pessoas que estão a um voo de distância dos Emirados Árabes Unidos (EAU). Quem estamos a servir? Quem pensamos que virá aos EAU daqui a quatro ou cinco anos? Este é o nosso desafio. Portanto o data analytics é muito importante para nós, temos feito investimento massivo em tecnologias da informação para compreendermos quem serão os nossos clientes do futuro.
Por outro lado, temos de compreender que com toda a tecnologia on-demand que temos disponível, tornámo-nos mimados. Não podemos ter ilusões e pensar que basta colocar uma pessoa durante noventa segundos numa montanha russa e que ela dirá, “fantástico”. Agora as pessoas querem saber mais sobre essa experiência, querem conhecer a engenharia envolvida, querem tirar consequências da experiência que sejam mais do que simples fotografias, querem vídeo, querem conteúdo online que possa ser revisitado ao longo dos anos e, por fim, como podemos estar conectados com as pessoas que estão connosco no parque e com as que estão no exterior e planeiam vir. Como podemos dar-lhes mais informação com o que se passa à sua volta? Como podemos disponibilizar-lhes realidade aumentada que traga as experiências para a vida?
É um grande investimento, sobretudo nesta parte do mundo por termos uma grande diversidade de público, recebemos pessoas muito interessadas em tecnologia de ponta e outras provenientes de culturas onde isso não é tão relevante e até pode ser algo intimidante.

L: Não será um paradoxo a evolução tecnológica substituir-nos em atividades que constituem um prazer para o Homem? Por exemplo, a condução autónoma substitui o prazer da condução tradicional?

JV: A Ferrari é uma marca que potencia a confluência entre tradição e inovação. Quando Enzo Ferrari criou a empresa, estava a tentar construir carros que fossem tão rápidos como um avião. Esta era a sua visão. Hoje em dia, quando falamos de tecnologia de ponta, não é preciso chegar à condução autónoma. Os carros já têm de ser inteligentes para compensar os erros que o condutor faz e dos quais, muitas vezes, nem se apercebe, seja na aceleração, travagem, direção, etc. Mas o carro continua a cheirar a Ferrari, continua a ter os seus bancos de cabedal, o chassis continua a ser executado à mão, o som continua a ser impecável e característico, sabemos quando um Ferrari está a entrar na rua, esses sentimentos viscerais continuam a ser muito importantes para nós e a estar presentes nos carros que estão, literalmente, a conduzirem-se sozinhos, de certa forma.

L: Faz parte da mística Ferrari.

JV: Sim, e há muitas coisas ligadas à Ferrari que as pessoas desconhecem. Por exemplo, sabiam que se forem a uma loja da Apple, todo o cabedal existente na loja é Ferrari? As pessoas sentadas à espera de serem atendidas estão a usar um assento Ferrari.

L: Como vê o Ferrari World daqui a dez anos?

JV: Creio que será o mais excecional parque temático do mundo e que, aliás, já o será há alguns anos.

L: Qual é a sua estratégia para alcançar esse objetivo?

JV: O parque tem de conseguir fazer com que os visitantes se sintam como sendo o seu único e exclusivo objetivo. Dificilmente as pessoas que visitam parques temáticos dirão que se sentiram tratadas como se fossem as únicas a visitá-lo naquele momento, isto porque são construídos para massas.
Todos os outros parques no mundo, seja Disney, Universal ou qualquer outro, têm algo em comum, o modelo de negócio. Estão feitos para receber milhões de pessoas e as marcas estão alinhadas com isso, produzem canetas, t-shirts, para consumo massificado.
O Ferrari World é muito diferente porque a nossa marca-mãe não é para consumo de massas, é uma marca exclusiva, mas que aposta num parque temático que deverá receber centenas de milhares de pessoas. É esse o nosso desafio. Como adaptar isto? Como transformar esta situação numa oportunidade?
Há várias marcas que passaram por esta realidade, uma delas é a Apple. A maior parte das pessoas dirá que o iPhone é o melhor telemóvel do mundo. O mais interessante é que as pessoas mais poderosas e ricas do mundo têm iPhone e nós temos exatamente o mesmo telefone que elas. E o mais curioso é que por muito rica e poderosa que seja a pessoa, dificilmente comprará um telemóvel melhor, porque não há. O mais interessante é que se formos agora à cafetaria e pedirmos ao empregado o seu telemóvel, muito provavelmente será um iPhone. E ninguém sentirá que o iPhone é menos valioso por ser usado massificadamente.
É este o nosso caminho, nós queremos ser o iPhone da indústria dos parques temáticos. Nós queremos trazer muita gente ao parque e garantir que ninguém se sente menos valorizado pelo facto de estarem muitas outras pessoas a visitá-lo.
Será um parque customizado à forma como as pessoas querem despender o seu tempo connosco.

JESSE VARGAS
Tem catorze anos de experiência na liderança de parques de entretenimento privados e públicos, incluindo parques temáticos, parques aquáticos, parques de animais, instalações de entretenimento, parques públicos e resorts.
Trabalhou nos EUA, no México, no Canadá, em Espanha, nos Emirados Árabes Unidos e nas Bahamas. Trabalhou com marcas de primeira linha, como a Sesame Street, a Six Flags, a Warner Bros., a Fórmula 1, a Kerzner International (Atlantis) e a Ferrari.

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