A Decisão: parte III

Mas para que servirá então deliberar bem? Para que servem as excelências da sabedoria e da sensatez?

“…elas produzem algo, não, contudo à maneira de a medicina restabelecer o estado saudável,
mas talvez como a própria saúde o cria.”

Ética a Nicómaco, Aristóteles

Antes de respondermos à pergunta, gostaríamos apenas de deixar aqui uma consideração prévia sobre a forma como Aristóteles analisa o bem no Livro I da sua Ética a Nicómaco. Diz-nos ele que o bem, analisado na categoria das substâncias (no que é), é: Qualidade (no como é), Relação (relativamente ao que é).
O bem em si, e a substância, são anteriores, pela sua própria natureza intrínseca, ao bem relativo (este é um acidente do ente). Não há uma ideia comum a todas estas formas de manifestação do bem. O bem é dito na categoria e, por isso, diz-se de tantos modos como se diz o ser: na categoria da Substância (Deus e o poder de compreensão); na categoria da Qualidade (as excelências); na categoria da Quantidade (moderação); na categoria do Tempo (momento oportuno); e na categoria do Espaço (estadias saudáveis). Não há aqui nenhum bem comum universal e uno, pois se assim fosse não poderia ser predicado com todas estas categorias diferentes.
Voltando à pergunta, considera Aristóteles que a sensatez, ao contrário da sabedoria, tem a possibilidade de gerar algo que pode tornar o Homem feliz. Ela é necessária com vista à justiça, à beleza e à bondade para o Humano, pois serão estes também os fins na base dos quais um Homem de bem age. Mas acrescenta o filósofo que não é por conhecermos estes fins que temos mais capacidade de ação, e, nessa medida, a sensatez será útil para nos tornarmos sensatos, mas isso deixa de fora os que já são sensatos e também os que não têm disposição de carácter para agir sensatamente; serão, pois, dois obstáculos à utilidade da sensatez. Considera ainda Aristóteles que sendo a sensatez inferior à sabedoria, poder ter mais autoridade do que esta só porque é capaz de gerar alguma coisa, “dá ordens a respeito de cada situação particular”, não parece correto.
No entanto, sensatez e sabedoria são em si possibilidades preferenciais porque dizem respeito às possibilidades extremas da alma, cada uma na sua parte, mesmo que não produzam nada nos seus domínios. Mas, na verdade, elas produzem alguma coisa, não na maneira habitual de produzir, mas à sua maneira própria. A sabedoria, segundo Aristóteles, cria felicidade pois quem é sabedor é feliz; o trabalho do Humano também é cumprido de acordo com a sensatez (com a excelência do carácter). O que é excelente é também correto e o fim excelente é o fim correto, a sensatez encaminha o Homem sensato nesse sentido. Esta é a possível utilidade da sabedoria e da sensatez.
Mas, na verdade, importa ainda aqui destacar as excelências autênticas e não tanto as excelências naturais, isto porque ser dotado naturalmente de alguma excelência não significa que o fim que se alcança seja excelente: “A excelência faz a decisão ser uma decisão correta; por outro lado, o que pode ser feito de modo natural para pôr uma decisão em prática não diz respeito à excelência, mas a um outro poder”. Aqui, quer referir-se a esperteza, que pode na verdade ser uma excelência, mas não autêntica. A esperteza pode ser também malícia quando o fim que se prossegue é mau. Só ao Homem de bem é dado conhecer o fim supremamente bom.
Todos podemos ser justos, sensatos e corajosos, podemos ter disposições de carácter naturalmente excelentes, ou, pura e simplesmente, cumprir regras ou ordens, mas quem tiver o poder de compreensão distingue-se no agir; distingue-se porque as suas disposições de carácter são agora dotadas de uma excelência autêntica, trabalhando esta última excelência em cooperação com o sentido orientador. Este sentido orientador que funciona em cooperação com as excelências autênticas, tem o mesmo campo de aplicação que a sensatez, o que leva Aristóteles a concluir que “não é possível haver bem de modo autêntico sem sensatez, nem é possível que o Humano tenha sensatez sem a excelência fundamental do carácter”. A sensatez assume tal preponderância que o facto de se ser possuidor desta excelência, implica ser detentor de todas as outras. E assim também: “Não pode então haver nenhuma decisão correta nem sem sensatez, nem sem excelência: esta faz-nos agir em relação ao fim; a sensatez faz-nos agir em relação aos meios para o atingir”.


Por: Catarina Barosa, diretora editorial

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